Terça-feira, Outubro 27, 2009

A Terceira Mão!...


i



A primeira mão escreve com o tempo e contra

o tempoa segunda reescreve o passado com o futuro e

por todo o lado instaura o presente do fim

depois a terceira mão vem e escova

e constela os tempos



ii
A primeira monta um cenário nocturno

à esperada noite que virá. A segunda traz a esse cenário

a noite glaciar. A terceira sobrepõe as noites

e revela o seu povoamento

comum: luz eléctrica, papel intensificado,

uma teoria da escrita, desolação.



iii
Uma segreda e comove-se

no espelho tempestuoso.

Outra secao saco lacrimal e deduz de si mesmo o movimento

que faz a emoção: A terceira contribui

com o espelho das metamorfoses, a câmara

que filma a dedução

[e enlouquece numa só letra.


[in A Terceira Mão, Caminho, 2008

Manuel Gusmão

Terça-feira, Outubro 20, 2009

As chuvas!...


Conversam entre si a chegada
das chuvas
O início de outra estação em que tudo muda
vêm a terra com mais frequência
O sítio dos homens, está mais vazio
De tempos a tempos, alguém percorre
a praia de olhar triste e distante
a solidão aumenta com a chuvas
O mar é mais longe!...
Os gritos das gaivotas são mais agudos
annadomar

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Há...


Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Quando eu Morrer!...



Quando eu morrer não me dêem rosas mas ventos.
Quero as ânsias do mar

quero beber a espuma branca duma onda

a quebrar e vogar.
Ah, a rosa dos ventos

a correrem na ponta dos meus dedos a correrem,

a correrem sem parar.

Onda sobre onda infinita como o mar

como o mar inquieto num jeito de nunca mais parar.
Por isso eu quero o mar.

Morrer, ficar quieto, não.

Oh, sentir sempre no peito

o tumulto do mundo da vida e de mim.
E eu e o mundo.

E a vida.

Oh mar, o meu coração fica para ti.

Para ter a ilusão de nunca mais parar.


Alexandre Dáskalos

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

11 de Setembro!...




Para que não se esqueça,
os olhos de fumo,
as mãos impotentes
para segurar tanta dor!
annadomar

Domingo, Setembro 06, 2009

A espera!...

Estava tão apaixonado que se fechou em casa, sentado junto à porta, para poder abraçá-la assim que ela batesse para lhe vir confessar que também o amava.
Mas ela não veio e ele envelheceu. Um dia alguém tocou, levemente à porta e ele , apavorado, fugiu, escondendo-se atrás do armário.

Tonino Guerra

Sábado, Agosto 29, 2009

Solitude - Rodrigo Leão



A solidão também se constrói entre palavras fechadas ao vento!...

annadomar

Segunda-feira, Agosto 24, 2009


O deserto é um silêncio depois do mar,

É o êxtase da luz sobre o coração da areia.

Vai-se e volta-se e nada se esquece.

Tudo se oculta para depois se dar a ver

No ponto em que os ventos se cruzam

E as almas gritam no fundo dos poços.

Os cestos sobem e descem prometendo água,

Uma frescura que derrete a febre.

Não são as tâmaras que adoçam a boca,

É a beleza das mulheres dissimulando

O desejo como um pecado sob a escuridão dos véus.

As serpentes assobiam ou cantam

Conforme o veneno que lhes molda o sangue.

Enroscam-se sobre as pedras

como fragmentos de lua à espera da manhã.

E a sombra alonga-se nas dunas

Ondulando rente às palmeiras

Como a última cobra do medo das crianças.

Não há ruído maior que este silêncio

Que se serve com tâmaras e com chá

Na mesa rasteira, sobre a terra molhada.

É no que não se nomeia que está o infinito.



José Jorge Letria

Domingo, Agosto 23, 2009

Ausência!...

Mal te deixo,
Continuas em mim, cristalina
Ou trémula,
Ou inquieta, por mim mesmo ferida
Ou cumulada de amor, como quando os teus olhos
Se fecham sobre o Dom da vida
Que sem cessar te entrego.
Meu amor, encontrámo-nos
Sedentos e bebemos
Toda a nossa água e todo o nosso sangue,
Encontrámo-nos
Com fome
E mordemo-nos
Como o fogo morde,

Deixando-nos em ferida
mas espera-me
guarda a tua doçura.
Eu te darei também
Uma rosa.


Pablo Neruda

Sábado, Agosto 15, 2009

Mais perto do Tejo!...


Mais perto do Tejo,

há palavras

que tocam o sossego dos lábios

para dizer o sul da mágoa,

no voo convergente das gaivotas,

quando os barcos se abrem

ao argumento ondulado das marés.


De O Tejo e a margem sul na poesia
portuguesa: antologia, 1993

Graça Pires

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

Instante!...

Ao anoitecer vem uma estrela
Visitar-me os olhos:

Deixo um lírio sobre a mesa
E o pão aos pássaros

Francisco José Viegas
Olhos de Água

Segunda-feira, Agosto 03, 2009

Amália Hoje - Medo!...




O medo veste-nos de cores frageis e desaparecidas em esquinas que se dobram com tanto esforço!....

annadomar

Domingo, Agosto 02, 2009

Despede-te de mim!...


Despede-te de mim, bate devagar à porta:
tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,
ruínas, tarefas de pão e linho, não dar
nome às coisas senão o de um vago esquecimento,
abandono. Despede-te de mim como se a vida
recomeçasse agora, não me procures onde
a memória arde e o destino se ausenta.
tudo são banalidades, afinal, quando assim
se recomeça e a vida falha como um material
solar e ilhéu. Levamos poucas coisas, basta
um pouco de ar, os objectos fixos, em repouso,
os muros brancos de uma casa, o espaço
de uma mão. Arrumo as malas e os sinais,
aquilo que nos adormece em plena tempestade.


De amor de O medo do Inverno em Metade da Vida, Quasi edições, Vila Nova de Famalicão
Francisco José Viegas

Quinta-feira, Julho 23, 2009

A arte da vida!...



"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. É preciso encontrar as coisas certas da vida, para que ela tenha o sentido que se deseja. Assim, a escolha de uma profissão também é a arte do encontro, porque a vida só adquire vida, quando a gente empresta a nossa vida, para o resto da vida".




Vinicius de Morais

Segunda-feira, Julho 13, 2009

Trago-te a maçã da noite
sem esperança, que me vejas.
Um gesto de silêncio,
perturba os passos
do soalho que estala
Dormes, enquanto escuto
os últimos barulhos do dia
o entardecer dos pássaros
tem pios tristes
a minha alma despe-se
com a noite no espelho

annadomar

Sexta-feira, Julho 10, 2009

Michael Jackson Will You Be There!

Sábado, Julho 04, 2009

Sábado!...




os cortinados agitados


a ventoínha silenciosa roda


a cama desfeita


na rua o movimento vai e vem


das manhãs de sábado


impertubável,mantenho o mesmo registo


todos os dias são iguais


o que varia são os sonhos!...




annadomar


Sexta-feira, Julho 03, 2009

As palavras dos outros!


Há momentos em que a vida nos prende pelas orelhas

tira-nos o sorriso habitual com que vestimos as manhãs

Perdemo-nos em transversais de ansiedade e na busca de palavras

As palavras dos outros, a esperança dos outros

Com a nossa a saltar do peito

De quando em quando há pequenos pedaços de céu que nos aquecem

Que nos dizem que sim, que tudo irá correr bem

Tudo vai passar e estivemos aqui juntos nesta luta a valer a pena

Apesar de tudo,
nesta roda da vida imensa que se espera!...



annadomar

Sábado, Junho 13, 2009

O que somos (dependendo do olhar...)


"É instrutivo ver os vários retratos que fazem de nós pela vida fora. Com traços lisonjeiros ou desagradáveis, entram-nos sempre pelos olhos dentro como estranhos, a perturbar uma paz que tinha um rosto habitual, familiar, a que estávamos acostumados. À imagem tranquila, sobrepõem-se outras inquietantes que não servem no cartão de identidade, e, contudo, nos identificam publicamente mais até do que a que nele figura. É que não se trata de neutras fotografias. São perfis apaixonados, justos ou injustos, com as virtudes e os defeitos cruamente patenteados. Quem um dia nos lembrar, é por eles que nos lembra. Somos o que nós sabemos, e parecemos o que os outros dizem de nós".



Miguel Torga

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Norah Jones - Turn Me On!...

Sexta-feira, Junho 05, 2009

Vitória!...




tens as mãos precárias

a marcarem a memória

humanamente física do meu corpo

não as consigo tirar da pele

ainda que o oceano seja imenso

e o tempo absurdamente presente

haverá uma ironia vaga

na vitória da matéria ?



silvia chueire

Sexta-feira, Maio 29, 2009

E tudo mudou!...



O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss
O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone
A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
"Problemas de moça" viraram TPM
Confete virou MMA
crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse
Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal
Ninguém mais vê...Ping-Pong virou BabalooO
a-la-carte virou self-service
A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão
O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CDA
fita de vídeo é DVDO CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email
O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do "não" não se tem medo
O break virou street
O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também
O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike
Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato
Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteuRPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,Cássia e Cazuza,Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...
A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!
A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz...... De tudo,
Inclusive de notar essas diferenças."


Luis Fernando Veríssimo

E tudo mudou!...

Domingo, Maio 24, 2009

Há dias!...


Há dias em que o que vemos é um buraco
Por vezes grandioso de luz, outras tantas
negro, como o tempo que nos veste!...
O que sentimos é uma agonia, uma tontura,
a envelhecermos, a trocarmos as palavras
Os gestos reprimidos,
afagam uma cabeça distraída
Corremos o tempo, de olhos fechados
fica-nos a saudade do tempo
em que ainda brincávamos
Num enrolar de ondas perigosas
e era só mais uma, e eram muitas!...
annadomar

Sábado, Maio 23, 2009

A banalidade dos dias!...

...e atirei-a contra a luz que atravessava a janela e, pouco a pouco, fui-me aproximando desse bosque húmido, que se ia iliuminando com o vermelho do seu botão florido.

E comecei a lambê-lo com ternura, com a mesma ternura com que os lábios tocam a pele de um recém-nascido, com a voracidade de quem, depois de andar milhões de anos perdido nas ruas de uma cidade, chega às portas de um templo, atravessa-as , põe a língua delicadamente de fora e, cheio de esperança, recebe numa húmida eucaristia toda a paz oferecida.
in, Blues de Um Gato Velho
A banalidade dos dias
Óscar Málaga Gallegos

Quarta-feira, Maio 06, 2009

Humility-Wim Mertens

Sábado, Abril 18, 2009


Vem sentar-te comigo,
Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlaçemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos,
passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes

Fernando Pessoa

Terça-feira, Abril 07, 2009



Estou à sede da alma
Nesta tarde de incertezas
Em que o vento rouba
As palavras certas
Com que gostaria de te falar
Visto o tempo que já não nos pertence
A rua mudou de sítio
Na casa cortaram os jacarandás
Que enfeitavam os dias felizes
Que fomos partilhando com os anos
Agora as memórias saltam tempos
Para não magoarem os dias infelizes!...
annadomar

Sexta-feira, Abril 03, 2009

O teu rosto!...


o teu rosto transformou-se na noite interminável


que atravessa cada tarde, cada tarde, cada tarde


interminável.o rio de fumo que levava o teu nome para as


estrelas dentro de dentro de dentro


da minha tristeza.e o teu rosto era tudo o que tinha.


e o teu nome era


tudo o que tinha. tu eras tudo. tudo. e tudo é agora


mais do que tudo.



José Luís Peixoto

Segunda-feira, Março 30, 2009

Concerto d' Aranjuez by Andre Rieu

Sexta-feira, Março 27, 2009

Estou!...


Estou
Por cima de tudo que tu possas
Ver ou sentir
Não direi palavras sérias
Apenas brincadeiras com vogais
E algumas consoantes
Que vou descobrindo
Enquanto caminho à beira água
Ladeada de choupos e saudades de ti
Há pouco, senti o teu cheiro
Na curva da memória
De um tempo a dois compassos
Momentos de silêncio
Quebrados pela queda da água
Com a cor dos teus olhos!

annadomar