
aqui está a paixão de quem atravessa a noite
do mundo... espiando o deserto da cidade
numa carruagem de metropolitano... sabes
perdi o rastro do pai e da mãe durmo onde calha
mas isso não vemos na fotografia
tenho tempo
as calças que me deram hão-de ajustar-se à medida
do meu corpo... a noite
comeu a pequena alegria do coração
o puto da cabeça rapada talvez seja apenas uma visão
pouco vemos do seu rosto franzino... os milhões de rostos
daquele rosto inclinado para o peito o olhar absorto
no enigmático trabalho das mãos... uma moeda?
uma caixa de fósforos para incendiar o susto da noite?
insondável jaula de néon onde te movimentas
mudas de alcunha para te manteres inacessível ao insulto
mas a pobreza é coisa que não se remedeia com a venda
do corpo e de pensos rápidos
já aqui não passam metropolitanos
a esta hora em que subúrbio de lata te escondes?
vem comigo...ensinar-te-ei o uso da fuga
e o minucioso uso das facas... depois
esperaremos o primeiro metro da manhã
iremos ver as árvores dos jardins subterrâneos
Al Berto